segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Vinte anos de Automação Residencial no Brasil: um balanço

Autor: Eng. José Roberto Muratori, Diretor Executivo da AURESIDE

Publicado na edição 234 da revista Lumiere Electric, novembro de 2017

No final da década de 90 estavam se tornando viáveis os primeiros projetos de Automação Residencial no Brasil. Ainda limitados a poucas funcionalidades e muito focados nas novidades na área de Áudio & Vídeo (entre outras, motivadas com o surgimento das primeiras TVs de tela plana) estes projetos começavam a incluir o controle de iluminação e de cortinas principalmente.

Embora recebidos com curiosidade por uma minoria de moradores, ainda estavam longe de se traduzir num efetivo beneficio e com a agravante de ter um preço bastante elevado. Eram ainda poucas as empresas que forneciam equipamentos e soluções de Automação Residencial, praticamente todas estrangeiras e isto nada favorecia a disseminação e a redução de preços para o cliente final, ou seja, para o morador.

Neste cenário, foi criada a AURESIDE – Associação Brasileira de Automação Residencial e Predial – que depois de alguns encontros iniciais entre seus membros fundadores, foi formalmente estabelecida em fevereiro de 2000. Na mesma época o mercado mais adiantado era o dos Estados Unidos. Dois diferentes tipos de soluções se destacavam então:

- sistemas simples, os chamados DIY (do-it-yourself), onde os moradores adquiriam módulos em lojas especializadas e faziam suas próprias instalações sem recorrer a profissionais. Estes produtos utilizavam um protocolo PLC (Power Line Carrier), ou seja, os sinais de comunicação eram levados pela própria rede elétrica já existente na casa. O protocolo utilizado denominava-se X10 e até hoje é considerado o pioneiro na área de automação domestica. A simplicidade de instalação era um grande atrativo, no entanto problemas recorrentes como interferências no sinal, duplicidade de fases, ruídos e outros relativos à instalação elétrica original podiam comprometer a confiabilidade e até mesmo o uso rotineiro destes aparelhos. Mesmo assim, este sistema teve uma boa aceitação local e ainda mantem um legado de instalações existentes até hoje.

- de outro lado, surgiram sistemas mais sofisticados e aperfeiçoados, principalmente ligados ao desenvolvimento da área de áudio e vídeo (ou o chamado Home Theater). O consumidor americano estava então descobrindo as inúmeras possibilidades de ter um centro de entretenimento doméstico criado ao redor do seu ambiente de Home Theater e passou a incluir tecnologias pertinentes a esta ambientação, principalmente a iluminação (artificial – luminárias e abajures e natural – representada pelas cortinas e persianas) e a climatização. Portanto, estes sistemas mais elaborados eram instalados por profissionais e buscavam facilitar o uso de equipamentos mais complexos (como receivers ou sistemas de som ambiente, por exemplo) e de reduzir a necessidade de usar muitos controles remotos, facilitando a vida dos moradores.

Ao mesmo tempo a automação na Europa seguia caminhos mais distintos, normalmente voltados mais à segurança das casas e à eficiência energética. Havia assim, um nítido contraponto entre as duas visões da automação residencial nos dois continentes onde ela começava a proliferar. Neste contexto, começaram as primeiras incursões da nova tecnologia no Brasil e notamos que uma combinação entre estas duas visões poderia ser compartilhada localmente, criando um comportamento mais adaptado ao morador brasileiro. E isto ocorreu gradativamente: embora as primeiras empresas que se estabeleceram por aqui fossem de origem norte americana e ditaram os padrões originais, notoriamente mais “hollywoodyanos” , em seguida chegaram as empresas europeias trazendo suas soluções também.

Reflete a predominância da visão americana o fato de termos adotado por aqui a denominação de “Automação Residencial”, uma tradução direta da chamada “Home Automation”, enquanto na Europa o termo adotado é Domótica, que acabou não vingando por aqui.

A partir de 2001 começamos a notar a entrada no mercado de fabricantes locais, ainda timidamente, mas que em alguns anos alcançaram uma participação de mercado significativa.

Também nesta época a mídia começava a abordar o assunto, ainda timidamente e de forma esparsa. A maioria das matérias apelava para os jargões de “casa inteligente” ou “casa dos Jetsons” para se referir aos sistemas de Automação Residencial que começavam a ser mais conhecidos. Uma boa coletânea destes textos pode ser encontrada no site da AURESIDE buscando na seção de “noticias” e é curioso se observar os modismos e chavões de cada época.

Os anos de 2002 e 2003 trouxeram alguns eventos que mereceram um bom destaque dos veículos de comunicação e trouxeram uma nova leva de profissionais a se interessarem pelo mercado. Notadamente a mostra chamada Salão de Inovação Tecnológica, apoiada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, que abrigou em 2002 uma “casa inteligente” com mais de 1400m2 e vários ambientes automatizados (onde jornalistas foram convidados a pernoitar e depois fazer suas reportagens a respeito) - ver video no Youtube - e em 2003 um “prédio inteligente” também com um projeto inovador e repleto de novidades.

Evolução do numero de empresas

Como um parâmetro da evolução do mercado podemos utilizar o numero de empresas (fabricantes e distribuidoras) associadas à AURESIDE para demonstrar o crescimento do setor. A figura abaixo mostra esta tendência.




Como se estruturou o mercado brasileiro

Ao longo destes anos foi se consolidando a figura do “Integrador de Sistemas Residenciais”, ou seja, o profissional responsável pelo atendimento do morador desde o inicio do projeto até a sua implantação definitiva. As etapas de atendimento se iniciam com a venda, seguem com o desenvolvimento de um projeto e continuam com a especificação, instalação e programação final. O mercado local se estruturou de modo que os fabricantes não atendem o cliente final, mas capacitam e certificam os profissionais que vão ter esta responsabilidade. Assim, se obtém um resultado final mais consistente pois o Integrador tem uma presença mais próxima das necessidades do seu cliente e pode escolher entre as diferentes tecnologias que conhece aquela que melhor vai atender as suas demandas e benefícios esperados. No Brasil o chamado DIY não é um padrão de mercado, são poucos os consumidores que desejam fazer suas próprias instalações e assim o mercado de integradores profissionais é quem atende a grande maioria das demandas de projeto.

Tecnologias e sua evolução

Diversas tecnologias passaram a ser utilizadas entre nós na primeira década do século XXI, a maioria absoluta ainda dependente de sistemas cabeados, ou seja, onde a transmissão de sinais ou comandos é feita através de cabos especificamente projetados para isto. Estes sistemas, no caso da Automação Residencial ainda utilizavam protocolos prioritariamente proprietários, ou seja, seus desenvolvedores não permitiam a interoperabilidade de suas soluções com as de outros fabricantes.

Os primeiros sistemas com transmissão sem fios começaram a chegar a partir de 2004 de forma ainda tímida e com poucas funcionalidades. A questão dos protocolos de transmissão sem fios também começou a ser levantada e discutida tecnicamente. Os primeiros sistemas utilizavam faixas livres de transmissão de radio frequência (as mesmas utilizadas, por exemplo, em portões automáticos) e, em contraponto, outras soluções já passaram a incorporar novos protocolos que surgiram na época, notadamente ZigBee e Z-Wave, que até hoje são predominantes neste mercado.

A utilização destes sistemas sem fios criou um novo mercado que praticamente não existia, ou seja, das moradias prontas onde o seu proprietário não desejava promover uma reforma profunda e alterar toda a sua instalação elétrica existente. Esta era uma condição que reduzia o espectro de utilização dos sistemas cabeados, pois estes se mostravam viáveis ou em novos projetos ou em reformas profundas. Portanto, os sistemas sem fio provocaram o surgimento de novas oportunidades de negocio e de muitos projetos inovadores.

Mas, sem duvida, a mudança mais significativa no mercado foi marcada pelo surgimento dos equipamentos pessoais moveis, como tablets e smartphones. No lançamento do primeiro iPad em 2010 poucos entenderam a profundidade da mudança que iria acontecer. Inicialmente perplexa, a indústria da Automação Residencial teve que se curvar ás evidencias que o impacto deste lançamento resultou depois de pouco tempo. Relutantes de inicio, logo os fabricantes perceberam que precisavam adaptar suas soluções para os novos “mobiles” e então se iniciou uma corrida em novos desenvolvimentos de aplicativos, softwares e projetos tiveram que passar a contemplar esta nova modalidade de controle.

Era inegável o crescente uso  dos tablets e smartphones pelos usuários em múltiplas aplicações, inclusive na vida doméstica. Portanto os sistemas de automação residencial teriam que se adaptar a esta situação ou se tornariam rapidamente obsoletos. Logicamente este foi um movimento global e não somente local. No Brasil, ocorreu inicialmente um lapso um pouco maior até que os novos sistemas se tornassem compatíveis, mas atualmente este gap já está superado e nos encontramos no mesmo nível tecnológico em escala mundial.

Nos dias de hoje o grande obstáculo para o crescimento mais acentuado do mercado é o relativo desconhecimento que os moradores ainda demonstram sobre os benefícios possíveis oriundos da utilização de sistemas de Automação em suas residências. A presença crescente de novas empresas e profissionais e a sua capacitação se tornam elementos de grande importância para permitir que o mercado encontre finalmente o seu esperado potencial.

Imagens de produtos e soluções citados no texto

Os pioneiros da Automação Residencial no mundo: a linha X10
1.     "Kit" Home Director da IBM

2.     Módulos (On/Off e Dimmer) da Radio Shack









Um console X10 que fazia a transferência de comandos de uma chamada telefônica (linha discada!) para os módulos instalados na casa. Notar que endereçamento dos módulos era manual, girando com a ponta da chave de fenda os pequenos discos que marcavam números e letras.









Por volta de 2002 surgem comercialmente os primeiros módulos com protocolo sem fio Z-Wave...

Um  "módulo dimmer de tomada" e um controle remoto, ambos da Sylvania. Através deste controle, os módulos eram endereçados e era possível programar acionamento remoto e cenários de iluminação





Módulos Z-Wave de outros fabricantes, surgidos na mesma época:

1- Dimmer de parede, fabricante Advanced Control, com chip de "radio" Z-Wave embutido

2- Modulo de tomada, fabricante HomePro

3 - Controle remoto / programador da GE, emissor de sinais Z-Wave















Falando em controle remoto... vemos nesta imagem uma linha do tempo: todos estes foram (ou ainda são) utilizados para controle de equipamentos domésticos. E, logicamente, são da "era pré tablet e pré smartphone...)

1 - Controle Infravermelho (IR) convencional)
2 - PDA ou PalmTop Zire 72 (com camera digital de 1,2 Mb)
3 - Controle universal com tela touchscreen e botões fixos - Logitech Harmony 1000
4 - Controle universal com tela touchscreen e interface RF Philips Pronto
5 - Tela touchscreen fixa (para embutir na parede) 









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